O voto árabe e o futuro de Israel

Por Estadão · Categoria: Geral ·

As eleições israelenses trouxeram, a uma só vez, resultados previsíveis e surpreendentes. O expressivo comparecimento de quase 80% dos eleitores num país onde o voto não é obrigatório não foi propriamente uma surpresa, assim como não se esperava que Benjamin Netanyahu alcançasse a maioria isolada na

As eleições israelenses trouxeram, a uma só vez, resultados previsíveis e surpreendentes. O expressivo comparecimento de quase 80% dos eleitores num país onde o voto não é obrigatório não foi propriamente uma surpresa, assim como não se esperava que Benjamin Netanyahu alcançasse a maioria isolada nas primeiras contagens. Inusitado, contudo, foi o bloco de Netanyahu reverter as tendências das pesquisas e obter mais mandatos do que as legendas judaicas da oposição tradicional. Ainda mais imprevisível foi a mobilização em massa da população árabe-israelense, cujo porcentual de votantes superou, pela primeira vez na história do país, o do eleitorado judeu. Em conjunto, as diferentes agremiações árabes conquistaram 19 das 120 cadeiras do Parlamento, introduzindo um elemento inédito no tabuleiro político: ao mesmo tempo que bloquearam a maioria automática de Netanyahu, impuseram à oposição de centro-esquerda a necessidade clara de negociar um acordo com as suas bancadas. Os cidadãos árabes de Israel descendem diretamente dos 160 mil palestinos que permaneceram nos limites territoriais estabelecidos em 1949, logo após a declaração de independência do Estado judeu. Parte expressiva de suas famílias tornou-se refugiada no Líbano, na Síria, na Jordânia e, majoritariamente, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Essa indissociável identidade palestina contrasta diretamente com a cidadania israelense que lhes foi concedida no período — a qual pressupunha, ao menos teoricamente, igualdade de direitos civis e políticos. A discriminação estrutural, o isolamento orçamentário e o não alinhamento ao sionismo — exceto pela minoria drusa e outros pequenos grupos — alimentaram décadas de desconfiança mútua com a maioria judaica. Nesse cenário, o absenteísmo árabe nas urnas historicamente prevalecia: participar do pleito era visto por muitos como uma legitimação do regime que os deslegitimava como minoria nacional. Nesse complexo contexto histórico, o Partido Comunista Israelense (Maki) assumiu pioneiramente o papel de canalizar as demandas da sociedade árabe. Fundada por intelectuais judeus, a legenda logo viu sua base eleitoral tornar-se majoritariamente árabe devido à defesa de direitos iguais. Alinhado ideologicamente a Moscou, o partido rejeitava o sionismo e defendia os direitos nacionais palestinos em pleno Parlamento, preservando sempre um deputado judeu em suas fileiras para sustentar sua diretriz binacional — prática que seu herdeiro atual, o Hadash, mantém rigorosamente até hoje. Nos anos 1980 e 1990, surgiram novas forças políticas na comunidade: o Balad, de perfil secular, nacionalista e radicalmente antissionista; o Ta’al, de viés social-democrata; e o Ra’am, vertente política do Movimento Islâmico (ramo sul). Todas superaram a cláusula de barreira e se integraram ao jogo político. Durante anos, essas siglas evitaram integrar coalizões de governo, embora tenham garantido o suporte parlamentar essencial para que o governo de Yitzhak Rabin não caísse durante as votações dos Acordos de Oslo. Concorreram separadamente até 2015, quando uma reforma eleitoral liderada por Avigdor Liberman elevou a cláusula de barreira para 3,25%. O objetivo manifesto era isolar e extinguir a representação árabe, mas o efeito foi oposto: forçou a criação da Lista Unificada, que alcançou o recorde de 13 assentos. Entre alianças e rupturas de bastidores, a Lista Unificada fragmentou-se. Em 2021, o Ra’am, liderado por Mansour Abbas, quebrou um tabu histórico ao concorrer isoladamente e aceitar compor abertamente o “governo da mudança” de Naftali Bennett e Yair Lapid, focando em obter verbas para combater a criminalidade e melhorar a infraestrutura local, interrompendo a longa hegemonia de Netanyahu. O colapso dessa coalizão heterogênea abriu caminho para o atual governo, marcado pela forte presença da extrema direita messiânica, incluindo o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir. Sob sua gestão, os homicídios triplicaram, concentrando-se majoritariamente (81%) na comunidade árabe, que perfaz 23% da população. Esse cenário de violência interna avassaladora, somado à retórica inflamada do gabinete, às operações militares em Gaza e às tensões na Cisjordânia, gerou a resposta expressiva e histórica nas urnas. Buscando pontes de governabilidade e soluções pragmáticas de segurança, o Ra’am buscou validar o legado de Yoav Segalovitch — que atuou como vice-ministro da Segurança Interna no governo Bennett-Lapid e liderou planos de combate ao crime no setor árabe —, usando esse histórico para legitimar-se como parceiro viável. Por sua vez, as demais siglas focaram na urgência de demover o gabinete atual. Há um clamor por mudança, mas este ainda não encontrou eco claro na oposição judaica. Atualmente, três dos quatro partidos da oposição judaica rejeitam um governo apoiado pelas bancadas árabes, sob a justificativa do antissionismo dessas siglas. Na prática, a oposição absorveu o enquadramento do próprio governo, que trata a participação política árabe como intrinsecamente ilegítima, mesmo quando exercida nos marcos estritos da democracia. Netanyahu depende do veto da oposição aos árabes para inviabilizar uma maioria alternativa e se perpetuar no poder. O futuro da democracia israelense depende de os líderes da oposição demonstrarem o pragmatismo e a grandeza que o momento exige, reconhecendo que a estabilidade do país passa pela inclusão plena de todos os seus cidadãos.