‘Exército do Lula’: Janones e governo tentam manter militância ativa para pressionar Congresso e STF

Por Estadão · Categoria: Geral ·

O deputado federal eleito André Janones (Rede-MG), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus aliados tentam manter ativa a militância digital que embalou a campanha à reeleição do petista. A avaliação é de que o Executivo precisará de apoio popular para alinhar o Congresso e o Supremo Tribu

O deputado federal eleito André Janones (Rede-MG), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e seus aliados tentam manter ativa a militância digital que embalou a campanha à reeleição do petista. A avaliação é de que o Executivo precisará de apoio popular para alinhar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) à agenda da gestão. Para tanto, aliados do governo tentam repetir as estratégias adotadas no “Exército do Lula” , canal no WhatsApp criado por Janones que impulsionou conteúdos de apoio à campanha do presidente e acumulou mais de 10 milhões de seguidores. Nesta semana, como prelúdio das táticas que serão utilizadas nos próximos anos, o deputado federal impulsionou publicações contra a revisão do fim das bets, alvo de uma ação no STF relatada por Luiz Fux . O canal também foi utilizado para impulsionar perfis ligados a Lula e ao PT. Para especialistas, as táticas do “Exército” foram inovadoras e exitosas, como atesta o resultado das eleições presidenciais. Por outro lado, o desenho da mobilização foi concebido em um contexto específico, centrado até aqui em uma só pessoa, e, para seguir eficiente, novas estratégias devem ser avaliadas. Eles também citam uma tentativa de “pressão externa” sobre os demais Poderes. André Janones foi procurado para comentar os usos do canal nos próximos anos, mas não respondeu. Nesta quinta-feira, 5, Lula e Janones participaram de uma transmissão ao vivo. O presidente elogiou a mobilização encabeçada pelo aliado e prometeu participar de mais conteúdos ao lado do parlamentar. “Você não tem noção do significado do ‘Exército’ na cabeça do povo. Acho que foi uma coisa extraordinária, que as grandes plataformas devem estar tudo com inveja”, afirmou Lula. Depois, ao citar a viagem à Turquia na semana que vem, onde será realizada a COP31, propôs a Janones que participasse da agenda internacional. “A gente pode ir lá e fazer umas livezinhas do nosso ‘Exército’”, disse . Para onde vai o ‘Exército’? Para Issaaf Karhawi , professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora em comunicação digital, o “Exército do Lula” fez frente ao modo como os conteúdos são distribuídos nas redes sociais. “A construção de comunidades está cada vez mais complexa pela arquitetura das plataformas, que, ao invés de nos incluir propriamente em redes sociais, vai nos colocando em bolhas do algoritmo, nos atomizando. O ganho do ‘Exército do Lula’ foi, justamente, resgatar a reunião por interesse”, disse a pesquisadora. Segundo Issaaf, apesar do sucesso obtido na campanha eleitoral, as estratégias do “Exército” devem ser “revisitadas” nos próximos anos. Ela aponta que, até o momento, o canal seguiu centrado em uma pessoa só, o deputado federal André Janones, que produziu conteúdos dentro do contexto de eleições presidenciais. Para ela, não há a garantia de que o mesmo volume de publicações, com os mesmos chamarizes, produza os mesmos resultados na divulgação de anúncios e propostas do governo. “Se antes existia um objetivo em comum que foi alcançado, a partir de agora, qual será esse objetivo? Se ( o canal ) for só uma lista de transmissão de notícias, isso esvazia o que foi a ‘cola’ das últimas semanas”, disse a professora. Para Alexander Hilsenbeck Filho , cientista político e professor da Faculdade Cásper Líbero, Janones valeu-se de uma leitura “sofisticada” sobre o uso das redes sociais. “Ao orientar os apoiadores a não responder a ataques para não ampliar o alcance do conteúdo adversário, Janones ensinou a militância a operar dentro da lógica de visibilidade das plataformas. Ele partiu do princípio de que as plataformas digitais não são neutras: elas estruturam a visibilidade, moldam o debate e influenciam o que circula como informação pública, afirmou o professor. ‘Narrativa pública favorável’ e pressão externa Sobre os possíveis usos do canal na atuação do governo, Alexander aponta que a ferramenta pode ser usada para explicar propostas, questionar obstruções da oposição, divulgar dados sobre políticas públicas ou convocar apoio a uma medida em disputa no Congresso. Nesse sentido, segundo ele, o canal iria além da comunicação institucional do governo, passando a fazer a “construção de uma narrativa pública favorável”. O canal opera em três níveis simultâneos: coloca um tema na agenda pública, enquadra a disputa como conflito entre interesse público e pressão de grupos econômicos organizados, e mobiliza apoiadores para compartilhar e circular conteúdos que reforcem esse enquadramento. Isso é coerente com a lógica que Janones já utilizou na campanha.” A diferença é que, no governo, o alvo deixa de ser exclusivamente eleitoral e passa a ser legislativo e regulatório”, detalhou Hilsenbeck. Do ponto de vista técnico da Ciência Política, isso configura uma forma de “pressão externa” organizada sobre o processo decisório, de acordo com Alexander. “O governo não precisa necessariamente controlar o Congresso para avançar em uma pauta; pode tentar alterar o ambiente político em torno dela, elevando o custo político de parlamentares que resistem”, explicou. Aliados de Lula valorizam aprendizado da esquerda Além de Janones, outros aliados de Lula que participaram da mobilização nas redes apostam na experiência do “Exército” para manter o engajamento da militância nos próximos anos. Para o deputado federal eleito Guilherme Cortez (PSOL-SP), a principal contribuição do canal “foi ter criado um veículo de direcionamento de toda a nossa base social, algo que a esquerda sempre teve dificuldade de fazer”. “O bolsonarismo vem construindo um ecossistema digital entre canais, cursos, perfis, figuras públicas e influenciadores, que amplifica a força desses conteúdos e ideias, enquanto na esquerda isso era mais disperso”, afirmou o deputado estadual de São Paulo. O parlamentar avalia que esse aprendizado pode ser aproveitado em novas estratégias de comunicação. Cortez admite que o engajamento deve ser usado para manter a governabilidade de Lula no próximo mandato. “Num cenário em que a correlação de forças é desfavorável ao governo, necessariamente, vamos precisar de apoio na mobilização social para poder governar”, disse ele. “Não é um cenário muito diferente do mandato atual. Algumas pautas importantes ao governo e à esquerda só foram aprovadas porque houve mobilização social presencial e digital.” Para a deputada federal eleita Luna Zarattini (PT-SP), “o ‘Exército do Lula’ seria muito maior que um canal de WhatsApp”. “Foi organizado um processo de mobilização política coordenado nas redes que gerou entusiasmo, empolgação e luta”, disse a petista. Para ela, o engajamento da militância nos próximos anos depende de propostas que se conectem ao dia a dia da população. “Quem vai manter o Exército será o povo através de lutas e pautas mobilizadoras.”