Ele deixou a carreira de corretor de seguros para ‘caçar’ nascentes de água escondidas em SP
Fincar as mãos na terra molhada, pisar descalço na água e sujar a roupa de terra passaram a fazer parte da rotina do empresário e ambientalista Adriano Sampaio, de 55 anos, depois que ele trocou uma sólida carreira de corretor de seguros para se dedicar à busca e à recuperação de nascentes escondida
Fincar as mãos na terra molhada, pisar descalço na água e sujar a roupa de terra passaram a fazer parte da rotina do empresário e ambientalista Adriano Sampaio, de 55 anos, depois que ele trocou uma sólida carreira de corretor de seguros para se dedicar à busca e à recuperação de nascentes escondidas em São Paulo. Ao lado de coletivos e ativistas, Sampaio promove intervenções no entorno das nascentes que ainda despontam em algum afloramento latente - geralmente em praças espremidas pela urbanização da cidade. O objetivo é recuperar esses espaços e criar pequenos ecossistemas a partir da formação de lagos, do plantio de mudas nativas e da introdução de animais, como peixes e girinos. “A gente precisa pensar em espaços mais adaptáveis às mudanças climáticas. E renaturalizar um rio é trazer qualidade de vida para a cidade”, diz ele ao Estadão . Sampaio tem trabalhos em andamento na Praça Homero Silva, também conhecida como Praça da Nascente , na Pompeia, junto do coletivo Ocupe e Abrace; e na Praça François Belanger , no Alto de Pinheiros (ambas na zona oeste), onde ajuda o grupo Academia de Mountain Bike a recuperar as nascentes locais. Ele também está com atuações em uma área residencial no Jaraguá, na zona norte, onde, junto de Suerda Deboa, do centro de cultura negra e de iniciativas ambientais Morada Jaraguá, conseguiu formar dois lagos a partir da recuperação de nascentes do Rio Bravo. O trabalho foi realizado em 2023, por meio de mutirões com moradores e, desde então, ele permanece trabalhando para fazer a manutenção do espaço. “Faço esse trabalho porque acredito e imagino uma São Paulo que tenha seus rios abertos e recuperados”, afirma. “Isso traz uma visão diferente para as pessoas, que a gente vive em uma cidade ribeirinha”. O empresário realiza intervenções ambientais há mais de 10 anos. Os primeiros manejos de nascentes surgiram de brincadeiras no quintal da avó, na Chapada Diamantina, na Bahia, quando ainda era criança. A vida adulta, no entanto, colocou um longo hiato nessa relação com a natureza, só interrompido depois que deixou a carreira na corretagem, em 2013. A partir daí, Sampaio passou a levar a atividade como gente grande. Formou-se em permacultura, fez cursos de plantas aquáticas e se aproximou dos povos indígenas que vivem nas franjas da cidade. Por três meses, chegou a morar na aldeia da etnia Guarani Mbya, na Terra Indígena Jaraguá, zona norte paulistana, comendo e dormindo com os povos locais. Também acompanhou de dentro os movimentos das aldeias em defesa da demarcação de terras. Dessa imersão, o empresário tomou notas de como cuidar do próprio espaço. “Quando acontece um crime ambiental, eles se protegem e defendem o território”, diz Sampaio, que aconselha: “A gente precisa escutar mais os indígenas”. Com eles, Sampaio acaba de concluir a sua mais recente intervenção. Em setembro, em parceria com a arquiteta Riciane Pombo - do escritório de arquitetura Guajava - e o Instituto Árvores Vivas, realizou um projeto de revitalização de um lago na aldeia Tekoa Itakupé, na mesma Terra Indígena Jaraguá. A intervenção incluiu o desassoreamento do Córrego Manguinho e o replantio de 500 mudas de espécies nativas da Mata Atlântica nas margens do curso d’água. A expectativa é de que o trabalho favoreça o aumento da população de peixes no lago e permita ampliar o cultivo da taboa, planta cuja fibra é usada na confecção de artesanato. Existe água em SP A ideia de se tornar um “caçador de nascentes” surgiu em 2014, durante a crise hídrica no Estado , quando os reservatórios operavam no limite e a população se via obrigada a racionar o consumo de água. Sampaio decidiu percorrer a cidade em busca de nascentes e registrar o que encontrava em vídeos publicados no Facebook. Assim nasceu a iniciativa “Existe Água em SP”, página que, nas palavras do empresário, foi criada para falar “exatamente o oposto do que estava sendo dito na época”. “Eu queria mostrar para a população que São Paulo, na verdade, é uma cidade ribeirinha. Aqui tem água, mas o processo de urbanização escondeu as nascentes”, conta. O conteúdo começou a viralizar e Sampaio se viu ainda mais engajado. Nos cálculos dele, estima ter encontrado mais de 200 afloramentos, mas a maioria já urbanizados. Com o passar dos anos e o nome mais conhecido, ele fundou uma microempresa e passou a ser contratado por grupos da cidade para fazer os trabalhos de manejo em praças de São Paulo. No caso da François Belanger, por exemplo, Sampaio foi convidado pelo educador Frederico Francisco, da Academia de Mountain Bike. Para as nascentes do Rio Bravo, o convite veio do Morada Jaraguá. “Em alguns casos, os coletivos já encontram as nascentes e me chamam depois para ajudar”. Além de recuperar cursos d’água que desapareceram sob a urbanização da cidade, Sampaio é chamado por escolas para dar aulas de educação ambiental e acompanhar alunos em estudos do meio. Nessas atividades, conta a história dos rios que passam pelo território paulistano e mostra como a água segue presente na paisagem urbana. Do escritório à floresta Bisneto de indígenas, Adriano Sampaio diz que sua relação com a natureza vem de família. O avô pescava no Rio São Francisco, e o pai costumava levá-lo para pescar. “Acho que é por isso que tenho conexão tão forte com esse elemento”, diz, referindo-se à água. Nascido e criado na Pompeia, zona oeste de São Paulo, ele viajava com frequência para a Bahia, onde visitava os avós, moradores da Chapada Diamantina . Foi no quintal da casa deles que fez seu primeiro lago, aproveitando um olho d’água que brotava no terreno. Apesar disso, Sampaio seguiu um caminho profissional mais burocrático. Começou a trabalhar em bancos ainda jovem, passou por uma grande empresa de assistência médica e planos de saúde e, depois de cerca de dez anos, tornou-se corretor de seguros autônomo. A carreira lhe permitiu comprar carro e apartamento e criar a família sem apertos. Também ajudou a dar uma casa para a filha. Com o tempo, porém, a rotina de escritório perdeu o sentido. “Quem trabalha com vendas tem de estar alegre. E eu não estava mais me sentindo bem”, lembra. Em 2013, quando ainda morava na Pompeia, Sampaio se juntou a outros moradores do bairro para fundar o coletivo “Ocupe e Abrace”. A proposta era ocupar a Praça da Nascente, recuperar o espaço e organizar festivais culturais, de música e arte para atrair mais pessoas. Foi ali que começou a colocar em prática o conhecimento adquirido desde a infância. Ao trabalhar na recuperação do lago da praça, ajudou a criar canais para conduzir a água e evitar a formação de charcos. “A água se espalhava, não tinha um caminho. Formava charcos. O pessoal ia andar e metia o pé na lama”, lembra. “Agora não tem mais isso, toda água da praça vai para os lagos”, acrescenta Sampaio, orgulhoso do feito. A experiência na Praça da Nascente marcou a mudança de rumo. Sampaio deixou a corretagem e passou a se dedicar integralmente ao trabalho com a natureza, tanto na cidade como na floresta com os povos originários. O maior sonho Preocupado com as mudanças climáticas, Sampaio sugere a implantação de parques lineares e corredores verdes para tornar a cidade mais resiliente a temporais, enchentes e ondas de calor. “Parques lineares seguem o curso do rio, evitam inundações e as pessoas andam mais a pé e de bicicleta, menos carros na rua.” Ele defende que iniciativas como a recuperação de nascentes e das pequenas áreas verdes possam ter, um dia, maior apoio do poder público e incentivos mais robustos da iniciativa privada. Enquanto isso, continua em pequenas intervenções. “A partir desse micro, um dia vira uma coisa maior. Alguém pode se inspirar e querer abrir um trecho do rio. Quem sabe até eu, por algum projeto, consiga renaturalizar um curso d’água... Esse é o meu maior sonho.”