‘Determinação supera limite humano’: memórias da 1ª vitória de Senna em Interlagos 35 anos depois
O Autódromo de Interlagos está repleto de marcas que refletem a idolatria do fã brasileiro por Ayrton Senna . O ícone do automobilismo nacional está em quase tudo, nas curvas - o S do Senna -, nas artes - com um busto e dois enormes murais feitos por Eduardo Kobra - e na memória. Há 35 anos, Senna q
O Autódromo de Interlagos está repleto de marcas que refletem a idolatria do fã brasileiro por Ayrton Senna . O ícone do automobilismo nacional está em quase tudo, nas curvas - o S do Senna -, nas artes - com um busto e dois enormes murais feitos por Eduardo Kobra - e na memória. Há 35 anos, Senna quebrou um tabu no autódromo paulistano e gerou imagens heroicas que simbolizam o que foi sua carreira. Obcecado por vencer em casa, na pista que ajudou a reformar e o forjou como piloto, Ayrton quase viu a vitória escapar novamente, como havia sido no ano anterior, quando bateu em Satoru Nakajima enquanto liderava a prova. Restando oito voltas para ver a bandeira quadriculada, Senna não conseguia mais engatar as marchas da sua McLaren. A única que entrou foi a sexta, e ele foi de sexta marcha até o fim. “Nas curvas lentas, era quase impossível guiar o carro. A força que eu tinha de fazer era maior ainda”, disse ele. Senna teve de segurar o carro no braço. A garoa chegou, Riccardo Patrese se aproximou. “Se der, vai ser no grito”, pensou primeiramente antes de concluir que não havia alternativa diante de tanto esforço senão a vitória. Do carro, Senna gritou, soltou palavrões, mas a frase que ecoou foi “não acredito”. A força de Senna foi tamanha para segurar a McLaren que ele teve espasmos musculares. “Não sobrou nada”, disse ele. No pódio, quando parecia que não conseguiria erguer o troféu, arranjou um último rastro de energia para levantá-lo com a mão direita. “O Brasil não emplacava uma vitória brasileira na Fórmula 1 em Interlagos desde 1975 com José Carlos Pace. O delírio do público se justificava. Quando o Ayrton Senna cruzou a linha, eu já estava correndo para o box da McLaren. Assim como dezenas de jornalistas brasileiros e estrangeiros. Fui empurrado, caí de joelhos (sem maiores consequências). Não consegui nenhuma informação na hora. Fui vê-lo só quando desceu do pódio: estava devastado, mas feliz da vida”, relata o jornalista Castilho de Andrade. Na edição seguinte à vitória de Senna em Interlagos, o Estadão estampou “Senna promete maiores emoções”. “Sozinho eu não teria forças para fazer o que fiz em Interlagos”, disse emocionado o piloto. “Foi algo além da minha vitória”, garantiu Senna, que ficou ilhado à noite em sua casa, no Tremembé, por mais de 2 mil pessoas. “Descansar pelo menos uma semana antes da próxima etapa do Mundial de Fórmula 1, o Grande Prêmio de San Marino, em Ímola, na Itália — a McLaren faz os primeiros testes no autódromo entre os dias 3 e 5 de abril — é o que Ayrton Senna mais quer no momento. Antes de viajar no seu helicóptero para a fazenda de Tatuí, no interior de São Paulo, o piloto brasileiro, que levou ao delírio os 70 mil pessoas que estiveram em Interlagos ao vencer pela primeira vez o Grande Prêmio do Brasil, explicou ter tido um calo bastante doloroso na mão direita devido a problemas no câmbio”, escreveu o Estadão . Lito Cavalcante escreveu naquela mesma página que a “determinação supera o limite humano” em uma reportagem ouvindo médicos e fisiologistas. ‘Entre os médicos, há uma certeza: foi preciso muita força de vontade para que Ayrton Senna chegasse ao fim do GP do Brasil e conquistasse sua 27ª vitória na F-1 — a primeira em solo pátrio. Não fosse assim, ninguém suportaria os espasmos musculares que fizera o corredor a imagem de uma pessoa alquebrada", escreveu o jornalista. “Ele tem uma cabeça extraordinária, mas isso não vem por acaso”, enfatiza. “Não é à toa que faço ele correr sempre no meio-dia, quando o calor é mais forte”, conta. “A intenção é treinar a resistência ao sofrimento, um elemento básico a todos os esportistas e a razão dele, no domingo, ter superado os limites humanos, superando dores incalculáveis e uma ansiedade terrível”, afirmou Nuno Cobra, preparador físico de Senna naquela mesma edição. Quem está hoje trabalhando no circo da Fórmula 1 também guarda memórias especiais daquela data. Com a TV queimada, Everaldo Marques, à época um adolescente de 12 anos, teve de recorrer a uma TV portátil de 5 polegadas para assistir àquela corrida. “Foi emocionante e épico, especialmente ao saber no dia seguinte que ele fez as últimas voltas apenas com a sexta marcha”, conta. Só ao fim daquele ano de 1991, Luciano Burti passaria a se dedicar ao kart, mas naquela prova, o comentarista estava na arquibancada de Interlagos. “Foi a minha primeira experiência vendo a Fórmula 1 ao vivo. Eu tinha 16 anos e estava na arquibancada do Setor B, bem em frente aos boxes e ao pódio. E a vitória do Senna em 91 foi histórica: a tensão, o choro no grid, o sofrimento físico no final e a quebra do tabu de vencer em casa. Foi inesquecível e uma honra ter estado lá”, conta o ex-piloto da F1.