“Não temos nada”: No Iêmen, mulheres coletam plástico para sobreviver

Por CNN Brasil · Categoria: Nacional ·

Agências de ajuda humanitária alertam que nova onda de violência no Iêmen está agravando rapidamente as condições em um país que já enfrenta uma das piores crises humanitárias do mundo

Duas mães solo que fugiram de seu vilarejo há três semanas enfrentam dificuldades para manter os filhos alimentados e aquecidos na cidade iemenita sitiada de Taiz. Elas vivem em um prédio danificado e vendem garrafas plásticas para conseguir sobreviver. Taiz abriga cerca de metade das 300 mil pessoas deslocadas em todo o Iêmen pelos confrontos mais recentes, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas). A cidade está praticamente isolada desde 3 de outubro, após uma escalada dos confrontos entre o governo, apoiado pela Arábia Saudita, e os houthis, alinhados ao Irã. Os combates impediram a entrada de suprimentos humanitários e a saída de civis. Leia Mais Houthis atacam aeroporto no Iêmen após aviso de retirada Houthis intensificam ataques com mísseis na capital da Arábia Saudita Houthis atacam palácio presidencial do Iêmen e matam dois seguranças Fatima Abdullah Qassem disse que as famílias fugiram a pé, no meio da noite, quando os combates chegaram ao vilarejo de al-Sayahi, na região de al-Dhabab, a oeste de Taiz. A família passou dois dias dormindo na rua porque o prédio danificado onde vive atualmente estava muito sujo, contou ela. “O prédio é aberto, veja, é aberto, com lonas improvisadas. Colocamos lonas, e está congelante. Não temos cobertores, não temos nada, juro por Deus”, disse ela, apontando para o espaço improvisado onde vive. Qassem, mãe de oito filhos e separada do marido, perdeu um dos filhos em uma explosão de mina terrestre em 2017. Ela e outra mãe, Intizar Ahmed Saeed, costumavam vender verduras, mas agora passaram a recolher e vender garrafas plásticas para sustentar os filhos. Saeed, viúva e mãe de sete filhos, disse que o pouco dinheiro que consegue ganhar com essa atividade não é suficiente nem para alimentar as crianças. “Minha vida é uma luta todos os dias, por Deus, uma luta. Estou dizendo, trabalho por 1.500 riais (US$ 0,96), e não é suficiente. Saio pedindo batatas, tomates, pimentas… O homem da casa (referindo-se ao filho dela) tem 15 anos e, atualmente, não há trabalho”, afirmou Saeed. Combates se intensificam Agências de ajuda humanitária alertam que essa nova onda de violência no Iêmen está agravando rapidamente as condições em um país que já enfrenta uma das piores crises humanitárias do mundo. Os combates entre os Houthis e a coalizão liderada pela Arábia Saudita — que apoia o governo do Iêmen — intensificaram-se nas últimas semanas, abrindo uma nova e volátil frente no conflito mais amplo entre EUA, Israel e o Irã. No mês passado, as forças Houthis avançaram em direção ao Estreito de Bab el-Mandeb, uma das rotas marítimas mais estrategicamente importantes do mundo, situada no lado oposto ao Estreito de Ormuz, do outro lado da Península Arábica. Desde então, as forças governamentais têm buscado retomar territórios na costa do Mar Vermelho, em uma manobra que poderia enfraquecer o controle dos Houthis sobre esse ponto de passagem crucial. Paralelamente, a coalizão intensificou os ataques contra posições Houthis, em resposta à escalada de ofensivas do grupo contra a Arábia Saudita. A retomada dos combates pôs fim a uma trégua mediada pela ONU em 2022, que havia conseguido conter, em grande parte, os ataques de maior escala no conflito — iniciado após os Houthis expulsarem o governo de Sanaa, em 2014. Desnutrição infantil cresce no Iêmen com aumento dos combates, diz Unicef