Crônica: Público e privado

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Temos novos códigos sociais na era das mídias sociais. Seguir alguém quer dizer algo. Parar de seguir, também. Dar um ‘like’, comentar ou não comentar. Apagar a foto de alguém que estava no nosso feed tornou-se grave. Bloquear, então, é gravíssimo – praticamente uma agressão física. Estamos todos ap

Temos novos códigos sociais na era das mídias sociais. Seguir alguém quer dizer algo. Parar de seguir, também. Dar um ‘like’, comentar ou não comentar. Apagar a foto de alguém que estava no nosso feed tornou-se grave. Bloquear, então, é gravíssimo – praticamente uma agressão física. Estamos todos aprendendo nesse novo ambiente: o que machuca, o que só arranha, o que rompe uma relação. Não se aprende isso apenas por ser jovem. E só se aprende estando dentro desses espaços, interagindo lá no dia a dia. Claro que existem diferenças no comportamento das gerações e acabamos espelhando esses comportamentos da vida real na virtual. Por isso, é tão fácil identificar a geração de uma pessoa pelo seu comportamento nas mídias quanto pela sua postura na vida “real”. Mas, se existe algo, entre tantos aspectos de um novo mundo ultraconectado, que sempre me causa espanto, é a distinção entre o público e o privado. Aprendemos a diferenciar o público do privado quando somos crianças. Gritar em público? Não. Brigar com um amigo ou com irmãos em público? Não. Essas regras iam nos moldando socialmente e fazendo com que os limites tomassem contornos claros, além de nos deixarem mais resilientes em relação às frustrações nas interações diárias. Engolir sapo em público fazia parte; as coisas se resolviam no privado. O problema é que, no mundo das mídias sociais, esses limites ainda não foram estabelecidos – será que algum dia vão ser? Somos como crianças sem pai nem mãe e temos fracassado em entender como nos comportar atrás das telas. Até pouco tempo, estava convencida de que era realmente falta de entendimento. Afinal, separações são feitas conversando cara a cara. Brigas entre amigas acontecem em encontros pessoais que podem levar ao entendimento ou ao rompimento. O voto é secreto , revelado, no máximo, a amigos próximos e à família. Era isso que eu pensava até ver as nossas interações nas últimas eleições. Pesquisas mostram que os brasileiros passam, em média, quatro horas diárias nas mídias sociais – quem trabalha nesse ambiente digital ultrapassa as oito ou dez horas diárias, chegando a até 13 horas por dia. Partindo dessa realidade, como fazer alguém entender que deve resolver questões na vida real, se não é onde se interage com amigos e familiares? Como explicar que você pode ler algo que te ofenda no virtual, mas que deve migrar para o real para resolver a questão? Outro fato: antes do virtual, os maiores acontecimentos das nossas vidas eram privados, compartilhados pessoalmente com família e amigos. Casamentos, partos, festas de aniversário… Enfim, só celebridades tinham a vida exposta. Agora somos todos celebridades nas nossas bolhas e todos esses momentos “privados” são “públicos”, o que nos leva à questão: o que é público ou privado em 2026? O voto? Se tudo é exposto e se queremos likes, comentários e interações, por que não exigiríamos saber o voto? Não tenho as respostas e tenho ainda mais perguntas. Sofro como cada um de nós, me ressinto e me frustro. Gosto de ter sido ensinada no mundo real sobre os limites entre o público e o privado, mas sei que minhas regras, apesar de eu ainda usá-las, estão em desuso. A nova cartilha está sendo escrita, se não por nós, à nossa revelia. Mas um novo código está nascendo.