O que carros de filmes futuristas revelam sobre nossos desejos e medos?

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Uma das minhas memórias mais gostosas da infância envolve um carro falante. Aliás, falante é pouco. K.I.T.T. era, literalmente, uma supermáquina. O Pontiac Firebird TransAm 1982 exalava charme e tecnologia, o que nos ajudou a imaginar um futuro em que carros com tais qualidades fossem reais. No cine

Uma das minhas memórias mais gostosas da infância envolve um carro falante. Aliás, falante é pouco. K.I.T.T. era, literalmente, uma supermáquina. O Pontiac Firebird TransAm 1982 exalava charme e tecnologia, o que nos ajudou a imaginar um futuro em que carros com tais qualidades fossem reais. No cinema, automóveis atravessam o tempo, desafiam as leis da física e até desenvolvem personalidade própria. Na literatura e nos games, também assumem funções que vão muito além do transporte. Em De Volta para o Futuro, o DeLorean DMC-12 se transforma em uma máquina do tempo. Em Mad Max, veículos modificados são fundamentais para a sobrevivência em um mundo pós-apocalíptico. Já em Christine, o Carro Assassino, bom…o próprio nome já diz. Essa relação entre máquinas e imaginação é um dos pontos explorados pelo escritor e roteirista Ale Santos, especialista em afrofuturismo e autor de obras de ficção científica e fantasia afro-brasileira. Em entrevista ao De Carona com JC, ele explica que seu interesse pelos automóveis está diretamente ligado à possibilidade de imaginar novas tecnologias e formas de mobilidade. “Eu curto carro pra caramba porque eu curto máquinas, eu curto robôs, máquinas, carros, essa intersecção, a ideia de como os carros podem se transformar ou transformar a mobilidade de uma cidade”, afirma. Quando os carros deixam de ser apenas veículos Te levar do ponto A ao ponto B é pouco. A ficção é extrapolativa. Um exemplo é o universo de Transformers, em que veículos se transformam em robôs, enquanto produções como Blade Runner apresentam cidades futuristas nas quais os carros também conquistam os céus. Para Ale Santos, essa relação entre fascínio e receio diante das máquinas tem raízes antigas. Segundo ele, a literatura e os movimentos artísticos do início do século 20 já exploravam a ideia de que a tecnologia poderia representar tanto o progresso quanto uma ameaça à humanidade. O escritor cita o futurismo, movimento artístico nascido na Itália, que celebrava a velocidade, as máquinas e a modernidade. Com o passar do tempo, entretanto, essa euforia também deu espaço a narrativas mais pessimistas, nas quais as invenções humanas poderiam se voltar contra seus criadores. “Tem sempre uma máquina do bem, uma máquina do mal que revela tanto essa euforia de que as máquinas são legais pra caramba e sempre tem alguém alertando: olha, elas são legais, mas elas podem nos matar também”, explica. Essa dualidade aparece em diferentes produções da cultura pop. Em Christine, por exemplo, o carro ganha características humanas e passa a agir por ciúme e rancor. Para Ale, histórias como essa exploram o medo de uma máquina que ultrapassa os limites do controle humano. Do carro voador à inteligência artificial A ideia de veículos capazes de voar também é antiga na ficção científica. O clássico Metrópolis, de Fritz Lang, lançado em 1927, já apresentava uma visão futurista das cidades, com diferentes meios de transporte integrados a uma paisagem urbana tecnológica. Quase um século depois, projetos de veículos elétricos de decolagem e pouso vertical, conhecidos como eVTOLs, começam a aproximar esse imaginário da realidade. Ainda assim, a distância entre apresentar um conceito futurista e desenvolver uma tecnologia capaz de funcionar em escala continua sendo um dos principais desafios. Na avaliação de Ale, é importante olhar com cautela para as promessas tecnológicas. Ele faz uma comparação entre a atual corrida pela inteligência artificial e antigas narrativas de ficção científica que alternavam previsões de grandes avanços e cenários apocalípticos. “Eu acho que a gente tem que desconfiar tanto de quem diz que a máquina é perfeita, porque essa é uma promessa que desde a virada do século se repete, quanto de quem diz que as máquinas fazer o apocalipse”, afirma. O escritor também questiona a maneira como algumas empresas utilizam o imaginário futurista para promover suas inovações. Para ele, mais importante do que apresentar uma tecnologia impressionante é demonstrar como ela poderá ser utilizada e qual será seu impacto na sociedade. Ao comentar os projetos de carros voadores, Ale destaca justamente a necessidade de avaliar a viabilidade dessas propostas, especialmente em grandes centros urbanos, que já enfrentam desafios relacionados à mobilidade e ao espaço aéreo. O futuro também pode ter personalidade A imaginação de Ale Santos sobre os automóveis não se limita às tecnologias que poderiam existir. Em seus livros, os veículos também são pensados como extensões da personalidade de seus personagens. Em O Último Ancestral, obra que mistura afrofuturismo e cyberpunk, os carros são adaptados para cumprir diferentes funções em um cenário de guerra contra androides. Mesmo em um futuro com máquinas avançadas e inteligência artificial, o escritor faz questão de preservar uma experiência que considera fundamental: a possibilidade de dirigir. “Quem gosta de dirigir pra caramba, gosta de sentir o volante virar as rodas e tudo mais, não perdendo essa emoção que é você poder controlar uma máquina”, conta. Já em A Malta Indomável, Ale apresenta a tecnomancia, uma combinação de tecnologia e magia. Um dos veículos da história tem o espírito de uma onça, com características que remetem ao animal. “Ela é como se fosse uma onça [...] que meio que se torna a alma desse carro e, por ter um espírito feroz, ela ronca, o motor dela ronca como uma onça, os faróis dela brilham como uma onça mística”, descreve. A ficção científica não serve apenas para imaginar carros que ainda não existem. Ela também ajuda a discutir o que esperamos dessas máquinas e como queremos nos relacionar com elas. Como resume uma frase atribuída a Isaac Asimov e lembrada por Ale durante a entrevista: “A ficção científica de hoje é o fato científico de amanhã.” Ouça o ‘De Carona com JC’ no player abaixo: