Desbarrancamento na rua Xavier de Mendonça se arrasta há cinco anos
Com a chegada do período de cheia, a preocupação é que a movimentação das águas agrave ainda mais o problema e aumente o risco para as famílias que vivem nas proximidades
Moradores da rua Xavier de Mendonça, no bairro de Aparecida, zona Sul de Manaus, acompanham com preocupação um desbarrancamento que já ameaça suas casas. Um dos imóveis abriga várias famílias em apartamentos alugados e está praticamente à beira do barranco. Do outro lado da rua, outra casa também está ameaçada pelo problema que, segundo eles, já se arrasta há anos, e a preocupação só aumenta com a previsão de subida do rio Negro nos próximos dias. A rua termina às margens do rio Negro, em uma área onde ficam embarcações e catraias utilizadas por trabalhadores. É nesse trecho, próximo à beira do rio, que o barranco está desmoronando. Com a chegada do período de cheia, a preocupação é que a movimentação das águas agrave ainda mais o problema e aumente o risco para as famílias que vivem nas proximidades. Problema começou há cinco anos Uma das residências ameaçadas é um prédio com apartamentos para aluguel, de propriedade da comerciante Ana Cláudia Martins, de 44 anos. Segundo ela, o problema começou há aproximadamente cinco anos, com pequenos desmoronamentos que foram avançando pela rua. Mesmo com o risco, há várias famílias morando no imóvel. “Já tirei foto, já fizemos vídeo, já mandei para conhecidos da Prefeitura, já fizemos abaixo-assinado, tudo que tu imaginar. Aí eles vêm, só fotografam também, dizem que vão voltar e não voltam. Quando o rio enche, dizem que não dá para fazer porque está cheio. Agora está seco e também não apareceu ninguém”, reclamou. A comerciante também disse estar preocupada com a estrutura do prédio, principalmente na área da varanda, onde já percebe sinais de que partes do terreno estão se soltando. Apesar do risco, ela disse que não pretende desocupar o imóvel, que foi fruto de muito investimento. Para ela, uma obra de reforço poderia evitar que o problema avance. “Na parte da varanda, quando a gente olha de fora, já vê algumas pedras saindo. A estrutura está começando a desabar nessa parte. Eu acho que tinha que fazer algo bem reforçado agora, antes de começar a encher o rio, porque, quando enche, fica mais perigoso. A estrutura acaba ficando mais frágil”, disse. Comerciante Ana Cláudia Martins aponta sinais de desgaste na varanda Foto: Daniel Brandão Estabilidade Em Manaus, novembro começou com chuvas e estabilidade no nível do rio Negro, que manteve a cota de 16,50 metros por três dias consecutivos, entre os dias 1º e 3, segundo dados do Porto de Manaus, teve uma pequena descida nos três dias seguintes, com média de vazante de 1cm por dia. A previsão do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da Universidade do Estado do Amazonas (LabClim-UEA) é que o rio comece a subir na segunda quinzena de novembro, após o período de vazante. Espaço virou área de risco Quem também convive com a situação é o carpinteiro e pedreiro Irineu Evangelista, de 42 anos, que mora de aluguel na rua. Natural de Alvarães, no interior do Estado, ele vive em Manaus desde os oito anos e conta que acompanha a deterioração do local há alguns anos. Segundo ele, uma parte do terreno desabou de forma mais intensa durante a enchente do ano passado, quando o banzeiro das embarcações atingia a margem. “Quando tem um banzeiro muito forte aqui, ele desabou de uma vez mesmo. E cada vez mais piora. Agora, quando chove muito, a água vem aqui para baixo. Está vendo como está? Antes era só um pedacinho, agora já está chegando mais para cá. A situação está feia, principalmente para o pessoal que mora nas casas ali na beirada”, relatou. Irineu afirma que a situação também prejudica a circulação dos moradores. O trecho, que antes era usado como espaço de convivência, onde crianças brincavam e adultos se reuniam no fim da tarde, já não oferece a mesma segurança. Até a passagem de quem precisa chegar às embarcações que ficam na margem do rio se tornou difícil. “Antes era uma pracinha, o pessoal jogava bola, vinha no final da tarde, ficava tudinho aqui. Hoje em dia não pode descer ninguém para cá. Até para ir para as canoas é um sacrifício. O pessoal vai por ali, caminha por cá, porque está tudo dificultoso. Tem criança pequena que não pode mais descer”, contou. O morador também reclama da demora nas providências. Segundo ele, a comunidade recebe promessas de que o local será recuperado, mas os serviços não chegam a ser realizados. Com as chuvas e a previsão de subida do Rio Negro, o receio é que o barranco continue cedendo e coloque ainda mais famílias em perigo. “Todo ano eles dizem que vão ajeitar. Vêm aqui, olham tudinho, interditam, dizem que tal dia vão começar, mas não fazem. Agora está mais calmo, mas quando começa esse período de chuva, tu vê a quantidade de água que desce lá de cima. Vai cavando e o barranco vai cedendo cada vez mais. A gente pede que ajeitem isso o mais breve possível, porque é um risco muito grande”, pediu. Construções erguidas no final da rua ficam a poucos metros do precipício Foto: Daniel Brandão Mais problema Também à beira do barranco, uma casa de madeira do outro lado da rua, na mesma situação das quitinetes alugadas, abriga uma família e corre risco de desabamento. A reportagem esteve no local, mas não conseguiu contato com os donos da casa. Sem resposta A reportagem de A CRÍTICA procurou a Prefeitura de Manaus para saber quais providências serão tomadas para conter o avanço do barranco, proteger as famílias que vivem nas casas ameaçadas e se há previsão e prazo para realização de obras no local. Até a publicação da matéria, não houve resposta.