As lições da carignan

Por Estadão · Categoria: Geral ·

Descubra a história da uva Carignan no Chile, variedade originária da Espanha que vem conquistando enólogos e críticos internacionais. Veja dados de importação no Brasil levantados pela Ideal.BI, as características do terroir do Vale do Maule e o regulamento dos vinhos com o selo Vigno.

O espanhol Luis Gutiérrez lembra-se bem dos 95 pontos, de uma escala de até 100, que deu para o Vigno 2011 da vinícola De Martino em 2014. Foi a nota mais alta da sua primeira avaliação dos vinhos chilenos para a The Wine Advocate, a então publicação do poderosíssimo Robert Parker, que hoje pertence ao guia Michelin. Em segundo lugar, com 94 pontos, rótulos consagrados, como o Almaviva 2010 e o Montes Alpha M 2011. “Dos mais de 800 vinhos degustados, foi o que mais me surpreendeu”, lembra-se Gutiérrez. Até hoje, a carignan, variedade espanhola e de nome francês, segue encantando o crítico, agora ele mesmo bastante influente com as suas pontuações, e que acaba de deixar o trabalho com Parker para assumir a diretoria da Vila Viniteca, renomada distribuidora de vinhos e destilados na Espanha. “A carignan é uma variedade mediterrânea, que faz todo o sentido ser cultivada no Chile”, afirma ele. E acrescenta: “Com as mudanças climáticas, que vão seguir fortes, a carignan deveria ser uma aposta dos chilenos, mas o país segue apostando nas uvas atlânticas, como a cabernet sauvignon e a chardonnay.” O depoimento de Gutiérrez soou como uma agradável melodia para os 14 membros da Vignadores de Carignan, ou simplesmente Vigno, associação que comemorou no final de outubro os seus 15 anos com um seminário com foco na variedade. No primeiro dia do evento, os especialistas visitaram vinhedos nas sub-zonas do Maule, como Empedrado, Loncomilla ou Cauquenes, para discutir sobre as características de solo e subsolo, do microclima e das maneiras de conduzir os vinhedos. E no segundo dia, o foco foi a discussão sobre como aumentar o consumo dos vinhos elaborados com essa uva e também uma degustação, conduzida por Gutiérrez, com vinhos elaborados com a carignan na Espanha. O Vigno nasceu da proposta de valorizar a carignan, que migrou da Europa para o Chile no início dos anos 1910, e bem adaptou-se ao terroir do Maule, ao sul do país andino. A uva é originaria de Aragão, na Espanha, onde é chamada de cariñena, mas é também conhecida como mazuelo, em Rioja. Ao migrar para o Chile, ganhou a grafia francesa, e foi plantada numa época em que a viticultura chilena ainda focava em vinhedos sem irrigação (secano), conduzidos em vasos (como plantas individuais) e em pé franco (sem porta-enxerto). A associação foi fundada em 2011 com a proposta de reunir produtores que elaboram tintos com esta variedade, originária de vinhedos plantados há pelo menos 30 anos. A carignan deve predominar, com pelo menos 85% do blend – não raro os seus vinhedos são misturados com a variedade país. O nome Vigno deve aparecer no rótulo em maior destaque que o nome da vinícola. A associação deu certo. Atualmente os enólogos e viticultores das 14 vinícolas trocam muita informação sobre a variedade, desde o comportamento de suas raízes em um subsolo não raro com muita argila e que tem a característica de acumular muita água no seu subsolo, até sobre as maneiras de enfrentar o oídio (um fungo que ataca folhas e frutos e que a carignan é uma das mais suscetíveis a ele) ou da influência do clima frio nos vinhedos. O resultado é uma melhora da qualidade do vinho na taça. A carignan segue como uma uva com muito tanino, uma de suas marcas principais, que resulta em vinhos estruturados e concentrados, mas que se destaca também pelo seu frescor crescente e pela boa acidez, que a torna também gastronômica. Seu consumo ainda é baixo no Brasil. Nos dados da Ideal.BI, a variedade representa 0,1% do total de vinhos chilenos importados pelo Brasil. Os tintos elaborados com cabernet sauvignon equivalem a 17% e com a carménère, a 8,9%, destas importações. Mas vale dar uma chance à variedade, seja pela sua importância histórica, mas, principalmente, pelo que ela entrega, cada vez mais, na taça.