Ameaças falsas de bomba contra voos desafiam autoridades da Europa e cada desvio pode custar até US$ 250 mil a uma companhia aérea
Mais de duas dezenas de alertas falsos provocaram desvios e pousos de emergência no continente, e especialistas veem dificuldade para conter a onda sem mudar protocolos. O post Ameaças falsas de bomba contra voos desafiam autoridades da Europa e cada desvio pode custar até US$ 250 mil a uma companhi
Uma série de ameaças de bomba contra voos de passageiros provocou desvios, pousos de emergência e escoltas militares no espaço aéreo europeu nesta semana. As autoridades classificam as mais de duas dezenas de ocorrências como alarmes falsos e informam que nenhum ataque foi realizado, mas o episódio expôs o peso que mesmo um aviso sem fundamento exerce sobre uma malha aérea de horários apertados. “Isso é realmente excepcional, nunca vi algo assim em toda a minha carreira”, disse à CNBC Wilfried Covent, presidente da consultoria de segurança Covent Consulting, especializada em aviação. Segundo ele, o habitual era haver um ou dois casos isolados de imitação. “O que vemos agora é um ataque sistemático a companhias aéreas e aeroportos.” Leia também: Bancos somam lucro de R$ 22,6 bilhões no terceiro trimestre, alta de 2,4% em base anual, com o Itaú na liderança E-mail a emissoras europeias amplia a tensão Na sexta-feira (6), uma mensagem enviada a emissoras de TV da Europa afirmava ter sido escrita pelo líder do grupo por trás dos alarmes falsos em aeronaves. O texto também dizia que havia bombas nas sedes dos veículos, o que levou a evacuações. Nenhum artefato foi encontrado. “O que aconteceu nesta semana é apenas uma pequena parte do que espera a Europa no futuro próximo”, dizia a mensagem, segundo a agência Reuters. A agência informou que não conseguiu confirmar a identidade do remetente, a origem dos e-mails nem a ligação com as ameaças aos voos. Muitos analistas de segurança avaliam que os responsáveis podem ser agentes ligados a Estados, atuando de forma coordenada para atrapalhar a rotina dos europeus, mas ninguém foi identificado. Ameaças a voos em curso acionam regras internacionais Covent afirma que os autores sabem que o ponto mais frágil da aviação é o ataque durante o voo. Uma ameaça a um aeroporto ou à aviação em geral permite avaliar a situação sem paralisar as operações. Já o alerta sobre um número de voo específico, com a aeronave no ar, aciona normas internacionais que impedem a omissão. Nesse caso, o procedimento prevê pouso rápido, evacuação e buscas por forças especializadas. “Você não pode dizer que, como 20 vezes antes foi alarme falso, desta vez também será. A segurança de passageiros e tripulação é a prioridade número um. Os criminosos sabem disso”, disse. Responsabilidade se divide entre diferentes órgãos Agências internacionais ouvidas pela CNBC explicam que a avaliação das ameaças e a adoção de medidas de segurança cabem, em primeiro lugar, às autoridades nacionais, em articulação com aeroportos, companhias e forças policiais. O controle de tráfego aéreo ajuda a encontrar local adequado para o pouso. A Agência de Segurança da Aviação da União Europeia (EASA) e a Autoridade de Aviação Civil do Reino Unido definem regras de segurança e o preparo das tripulações. Dentro do bloco, a Comissão Europeia atua na política de segurança da aviação e na coordenação entre os países-membros. Joji Waites, diretor de segurança de voo, política e regulação da Associação Britânica de Pilotos de Linhas Aéreas, diz que os avaliadores classificam a ameaça como vermelha, âmbar ou verde. Segundo ele, o nível âmbar jamais é atribuído quando o avião está em voo. Se a ameaça é considerada crível, a tripulação é informada e o comandante assume as decisões, orientado pelos procedimentos da empresa. No solo, isso pode significar evacuação. No ar, a prioridade é pousar o mais rápido e com a maior segurança possível. Desvio de voo afeta escalas, tripulações e conexões Cada desvio repercute no voo seguinte da aeronave, na jornada de trabalho da tripulação e nos passageiros com conexões. Philip Baum, professor visitante de segurança da aviação na Universidade de Coventry, disse à agência AP que um único desvio pode custar até US$ 250 mil a uma companhia, somando tripulações substitutas, conexões perdidas e reorganização da programação do dia. Um porta-voz da EASA afirmou, em comentários enviados por e-mail, que os desvios perturbam um sistema desenhado para previsibilidade e eficiência e elevam a carga de trabalho de pilotos, controladores e aeroportos. Como esses profissionais são treinados para imprevistos, o risco imediato de cada alarme falso é baixo. Ainda assim, o maior número de desvios impõe tensão adicional ao sistema. Governos avaliam mudanças em regras de segurança John Edwards, consultor sênior da Gates Aviation, em Londres, afirmou que os governos já examinam seus marcos regulatórios e que haverá discussões em nível europeu e global. “Ameaças de bomba à aviação existem há décadas. O que eles precisam avaliar é o que há de diferente”, disse. Para ele, é preciso entender por que houve tantas ameaças e por que tantas foram consideradas críveis a ponto de justificar as medidas. Edwards acrescentou que, em teoria, a grande maioria deveria ser classificada como não crível pelos processos rotineiros de avaliação de risco. Eric Schouten, ex-oficial de ligação de inteligência do serviço de segurança holandês e presidente da consultoria Dyami, avalia que alterações nas regras levariam tempo, pois exigem equilibrar visões de países, aeroportos, autoridades de segurança e União Europeia, com a geopolítica no jogo. “Há grande probabilidade de que mais voos sejam cancelados ou desviados. É possível que os próximos alvos sejam ferrovias e rodovias”, disse. Schouten ponderou que o setor encontrará uma saída, já que cópias de ameaças sempre existiram. Segundo ele, as medidas adotadas não serão divulgadas, para não alertar os responsáveis. Covent concorda que não haverá mudança rápida no protocolo de avaliação. “Se isso continuar para sempre, algo terá de mudar, ou será preciso parar de voar completamente”, afirmou. Ele lembrou que o tipo de ataque pode mudar com o tempo e citou a onda de ataques cibernéticos que atingiu geladeiras de supermercados e bancos de sangue. “Como europeus, precisamos estar preparados.” O post Ameaças falsas de bomba contra voos desafiam autoridades da Europa e cada desvio pode custar até US$ 250 mil a uma companhia aérea apareceu primeiro em Times Brasil | CNBC .