Moraes e Vorcaro: o passo a passo da relação, do primeiro contato à crise no STF
A relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, começou com um número de telefone salvo no fim de 2023. Relatório da Polícia Federal, concluído em agosto, reconstrói contatos entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Mo
A relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, começou com um número de telefone salvo no fim de 2023. Relatório da Polícia Federal, concluído em agosto, reconstrói contatos entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes desde dezembro de 2023. Moraes nega irregularidades e contesta as mensagens. O plenário do STF ainda não decidiu se ele será investigado. Veja abaixo, em ordem cronológica, o que os documentos e reportagens publicadas sobre o caso revelam até agora. O primeiro contato, em dezembro de 2023 Segundo o relatório da PF, o número de telefone de Moraes foi salvo no celular de Vorcaro terça-feira (26) de dezembro de 2023. A ponte foi feita pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que apresentou um ao outro. No aparelho do banqueiro, o número ficou registrado como “Alexandre de Moraes BRASÍLIA”. Quatro dias depois, em 30 de dezembro, os dois se encontraram no hotel de Vorcaro em Campos do Jordão (SP). Mensagens atribuídas ao banqueiro mostram que ele cuidou pessoalmente do almoço. As conversas citam itens de alto valor, como caviar, trufas, foie gras, wagyu e vinhos franceses, além de um pedido para que o nome de Vorcaro fosse evitado durante o encontro. O contrato com o escritório Barci de Moraes No mês seguinte, o Master fechou contrato com o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Pelo acordo, o escritório receberia R$ 108 milhões líquidos, divididos em 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões. Com o acréscimo de 17% para cobrir tributos, o valor bruto chegaria a cerca de R$ 131 milhões em três anos. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a PF encontrou nos metadados do arquivo duas alterações feitas por um perfil chamado “Ministro Alexandre de Moraes”. A primeira modificação identificada pela PF ocorreu em 11 de janeiro de 2024, às 16h30. A segunda ocorreu em 15 de janeiro, cerca de uma hora e 40 minutos depois de Vorcaro devolver a minuta com marcas de revisão. O contrato foi assinado digitalmente em 23 de janeiro. O escritório confirmou as edições. Segundo a banca, o setor de compliance pediu ao ministro que avaliasse se havia algum impedimento legal à contratação. Na defesa de 44 páginas entregue ao presidente do STF, Edson Fachin, Moraes classificou o contrato como “legalmente existente”. Os pagamentos começaram em fevereiro de 2024. Até o fim de 2025, o Banco Master teria repassado 22 parcelas, que somaram R$ 80,2 milhões. Os depósitos foram interrompidos em novembro, quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco. Em março de 2024, de acordo com o Estadão, Fábio Faria avisou Vorcaro de que Moraes havia cobrado o atraso nos pagamentos. Depois disso, o banqueiro montou uma operação na tesouraria do Master para garantir os repasses em dia, mesmo sem nota fiscal. Faria afirma que não conhecia os valores do contrato. O escritório diz que prestou ao Master serviços de compliance, prevenção à lavagem de dinheiro e gestão de riscos, com 94 reuniões durante a vigência do contrato. O segundo contrato, que Moraes diz não existir No celular de Vorcaro, a PF também encontrou um documento de R$ 50 milhões que seria pago com cotas de aeronaves. Os aviões eram administrados pela Prime You, empresa de compartilhamento de jatos da qual o banqueiro era sócio. As reportagens divergem sobre a data. Uma aponta maio de 2025. Outra, baseada na coluna de Malu Gaspar no jornal O Globo, diz que a minuta é de agosto de 2025 e nunca foi assinada. Moraes nega a existência desse acordo. “Com ilações absolutamente falsas, o relatório indica a existência de uma segunda contratação, que jamais existiu”, escreveu. Encontros e voos em 2024 e 2025 Segundo a coluna de Andreza Matais, no portal Metrópoles, Moraes esteve ao menos duas vezes na mansão de Vorcaro no Lago Sul, em Brasília. A primeira visita foi em 6 de novembro de 2024, noite da eleição americana. A segunda ocorreu no primeiro semestre de 2025. Naquela ocasião, o ministro teria conhecido o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Na época, o Master buscava apoio para evitar a quebra. Moraes nega esse encontro. Em abril de 2025, Vorcaro escreveu à namorada, Martha Graeff, que iria encontrar Moraes perto de casa, em Campos do Jordão. A informação foi publicada pelo Metrópoles e pelo Estadão. Ainda segundo o Metrópoles, Moraes e Viviane teriam voado ao menos oito vezes, entre maio e outubro de 2025, em jatos ligados a Vorcaro e ao cunhado dele, Fabiano Zettel. O gabinete do ministro nega. Em nota, afirmou que Moraes “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. O escritório diz ter contratado diferentes empresas de táxi aéreo, entre elas a Prime You. Em setembro, circulou um vídeo do casal desembarcando de uma aeronave ligada ao banqueiro. Mensagens publicadas pelo jornal O Globo mostram que Viviane estava salva como cotista do jato Legacy PP-NLR. Ela havia reservado voos para o feriado de 20 de novembro de 2025 e cancelou as reservas em 18 de novembro, um dia depois da prisão de Vorcaro. Em 28 de outubro de 2026, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) notificou os operadores de dois aviões ligados ao banqueiro, de prefixos PP-BIO e PS-FSW. Nenhum dos dois têm licença de táxi aéreo, e a agência quer saber se as aeronaves transportaram o ministro. As semanas antes da prisão As mensagens mudaram de tom no fim de outubro de 2025, quando o Master já estava sob pressão do Banco Central e dos investigadores. Em 28 de outubro, com Moraes em um congresso na Espanha, Vorcaro se ofereceu para ir a Brasília “dar uma atualizada”. Dois dias depois, fez a primeira sugestão de interferência nas investigações. Em 4 de novembro, ele perguntou se havia “algo que dê para bloquear”. Para a PF, diálogos de 4 a 6 de novembro indicam que informações sigilosas da investigação teriam chegado ao banqueiro. As reportagens registram encontros combinados para 14 e 16 de novembro. No dia 15, um sábado, Vorcaro perguntou se deveria estar fora do país na segunda-feira seguinte. Também quis saber se ainda dava para frear as investigações: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, escreveu. Na mensagem aparecem só os primeiros nomes. Para a Polícia Federal, “Paulo” é o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e “Andrei” é o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Vorcaro ainda perguntou se a ordem viria de “aquele mesmo juiz Ricardo”, que a PF identificou como o juiz federal Ricardo Augusto Soares Leite, e se “Galípolo” sabia do que estava acontecendo. Segundo os investigadores, era uma referência ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. No interrogatório de 28 de agosto, a PF perguntou ao banqueiro sobre outra mensagem com os nomes “Andrei” e “Paulo”. Ele declarou não ter segurança para identificar os envolvidos. Vorcaro tinha um método para enviar essas mensagens. Ele digitava o texto no bloco de notas, fazia uma captura de tela e mandava a imagem pelo WhatsApp em visualização única, recurso que apaga o conteúdo depois de aberto. Mesmo assim, a perícia conseguiu reconstruir parte das mensagens. Em 17 de novembro, às 17h26, ele perguntou se havia novidade ou se tinha sido possível “bloquear”. Naquele dia, a perícia identificou quatro mídias de visualização única enviadas ao celular de Vorcaro pelo número atribuído a Moraes. Nenhuma foi recuperada. À noite, o banqueiro foi preso no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para embarcar para Malta e, de lá, seguir para Dubai. A investigação da PF comprovariam que Vorcaro fez os pedidos, mas não mostram que Moraes tenha conseguido ou tentado adiar qualquer medida contra o banqueiro. Vorcaro foi solto em 29 de novembro de 2025. Voltou a ser preso em 4 de março de 2026, em uma nova fase da Operação Compliance Zero. O que diz Moraes Em março de 2026, a Secretaria de Comunicação do STF divulgou uma nota a pedido do ministro. Segundo o texto, uma análise técnica concluiu que as mensagens de 17 de novembro estão ligadas a outros contatos de Vorcaro, e não a Moraes. A defesa afirma que o número periciado não pertence ao ministro. Moraes classificou o relatório da PF como “nulo e imprestável” e diz que nunca julgou processos do Master ou de Vorcaro. Em interrogatório realizado em 28 de agosto, Vorcaro disse à PF que não se lembra de quem recebeu uma das mensagens que os investigadores associam ao ministro. A crise no Supremo A PF concluiu o relatório em 27 de agosto de 2026. Em 1º de setembro, o ministro André Mendonça, relator dos casos do Master, retirou o sigilo do documento. Em 12 de setembro, Fachin assumiu a condução do processo. Na sessão extraordinária de 15 de setembro, Kassio Nunes Marques se declarou impedido, e Dias Toffoli, suspeito. Antes de chegar ao mérito, o plenário discutiu se o caso de Moraes deveria ser julgado com o de Mendonça. Moraes votou a favor da unificação. Ele argumentou que nem a PF nem a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediram investigação contra ele. A PGR, por sua vez, pede a anulação do relatório. O placar estava em 4 a 3 pela separação dos casos quando Flávio Dino pediu vista, isto é, mais tempo para analisar o processo. Com isso, o julgamento foi suspenso. Depois da sessão, o partido Novo pediu que o pedido de vista fosse desconsiderado. Gilmar Mendes defende que o STF identifique todos os ministros citados nas investigações do Master antes de retomar o julgamento. Em 9 de outubro, Fachin arquivou um dos pedidos de afastamento de Moraes, sem analisar o mérito. As 316 interações no celular Na sexta-feira (6), o portal UOL publicou um novo levantamento feito com dados do WhatsApp do celular apreendido. A análise usou bancos de dados secundários do aplicativo, arquivos que continuam no aparelho mesmo depois que as conversas são apagadas. O período coberto vai de 17 de setembro a 17 de novembro de 2025, dia da apreensão. Nesses dois meses, o aparelho registra 316 interações com Moraes. Das 316 interações identificadas, 187 correspondem a mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro. Os outros 129 registros incluem mensagens atribuídas a Moraes e avisos automáticos do aplicativo. O levantamento recuperou 69 mensagens. A Polícia Federal já conhecia 52 delas, e 17 eram inéditas. Nem tudo veio inteiro. Em alguns trechos, as palavras estavam fora de ordem, e os pesquisadores reconstruíram os diálogos com base na sequência mais provável. Parte das mensagens inéditas é de 14 de novembro, três dias antes da prisão. Naquele dia, Vorcaro saiu de São Paulo em seu avião particular rumo a Brasília. Às 13h24, uma mensagem atribuída a Moraes dizia: “Me avise quando pousar”. O banqueiro confirmou a chegada, e veio outra pergunta do mesmo contato, querendo saber se ele já tinha pousado. Às 14h46, a última mensagem da sequência: “A caminho então”. Os registros indicam que os dois podem ter combinado um encontro, mas não confirmam que ele aconteceu. Há também conversas pessoais. Dois dias antes, os dois falaram de assuntos de família, com comentários sobre o papel de Moraes como pai. Em outubro, aparece um agradecimento atribuído ao ministro, acompanhado de uma imagem que se perdeu. Moraes nega ter trocado mensagens com Vorcaro. Ele questiona a autenticidade dos diálogos e a cadeia de custódia do aparelho, ou seja, o controle sobre quem teve acesso ao celular desde a apreensão. A defesa do banqueiro também contesta a integridade dos dados extraídos. Próximos passos Pelo regimento do STF, Dino tem até 90 dias para devolver o processo. Contado a partir de 15 de setembro, o prazo termina em 14 de dezembro, perto do recesso do Judiciário. Em entrevistas ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, Marcelo Crespo, coordenador do curso de direito da ESPM, e Alexandre Bahia, professor da UFMG, avaliaram que a decisão pode ficar para 2027. Quando o caso voltar à pauta, o plenário ainda terá de resolver as questões processuais antes de decidir se abre investigação contra Moraes. O post Moraes e Vorcaro: o passo a passo da relação, do primeiro contato à crise no STF apareceu primeiro em Times Brasil | CNBC .