Com ‘Dark Horse’, Bolsonaro tem ‘universo cinematográfico’ que mistura dinheiro público e privado
Além de “Dark Horse” , o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está ligado a outros três filmes com produtores interligados entre si. Juntos, eles formam um “universo cinematográfico” cujo financiamento mistura dinheiro público e privado. Em “Dark Horse”, inspirado na vida do ex-presidente, o maior “mec
Além de “Dark Horse” , o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) está ligado a outros três filmes com produtores interligados entre si. Juntos, eles formam um “universo cinematográfico” cujo financiamento mistura dinheiro público e privado. Em “Dark Horse”, inspirado na vida do ex-presidente, o maior “mecenas” foi Daniel Vorcaro , ex-dono do Banco Master, mas investigações da Polícia Federal (PF) e da Polícia Civil de São Paulo suspeitam que recursos públicos tenham sido desviados para a produção do longa-metragem. Um segundo filme sobre Bolsonaro tem o financiamento sob suspeita: o documentário “A Colisão dos Destinos”, lançado em maio deste ano. A Agência Nacional de Cinema (Ancine) investiga os custos da obra após suspeitar que o gasto declarado pela produção pode ter sido subnotificado. O diretor de “A Colisão dos Destinos” é roteirista de outra produção ligada ao PL, esta realizada com verbas públicas: o documentário “Nós”, que recebeu R$ 860,8 mil em emendas de Mário Frias (PL-SP), Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Marcos Pollon (PL-MS). A obra foi produzida pela Associação Passos da Liberdade, que voltou a ser contratada pelo PL para a realização de outro documentário, compartilhando os mesmos produtores para os dois projetos. O produto, intitulado “Problemas Nacionais – Reflexos Locais”, é bancado com recursos do Fundo Partidário. Os produtores das obras foram procurados, mas não responderam. ‘Dark Horse’ é investigado em duas frentes O financiamento de “Dark Horse” está na mira da Polícia Federal em duas linhas de investigação. Em uma das frentes, a corporação apura se os recursos solicitados pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro foram usados para bancar a permanência de Eduardo Bolsonaro e de seus familiares nos Estados Unidos . Em vez de aportar os recursos na produtora do filme, Vorcaro usou uma empresa ligada a ele, a Entre Investimentos, para enviar recursos a um fundo financeiro nos Estados Unidos, o Havengate, o qual, por sua vez, repassava os valores às filmagens do longa. A PF também apura se recursos públicos foram parar na produção, misturados ao dinheiro privado. Em setembro, ao pedir a deflagração da Operação Make Up ao ministro Flávio Dino , do Supremo Tribunal Federal (STF) , a corporação apontou a suspeita de que ao menos R$ 750 mil oriundos de emendas parlamentares de Mário Frias tenham ido parar na Go Up Entertainment, produtora do filme. Segundo relatórios de inteligência financeira obtidos pela investigação, os recursos teriam chegado à empresa após passarem por intermediários. Esta também é a suspeita da Polícia Civil de São Paulo, que investiga se recursos da Prefeitura da capital paulista chegaram à produção do filme a partir do Instituto Conhecer Brasil (ICB) , uma ONG presidida por Karina da Gama , dona da Go Up Entertainment. “Dark Horse” já foi registrado na Ancine, mas não tem data de lançamento prevista. Com a distribuição da Europa Filmes, o título foi traduzido como “O Azarão”. Karina da Gama foi procurada para comentar a produção de “Dark Horse”, mas não respondeu. Ancine apura custos de documentário “A Colisão dos Destinos” é um documentário sobre a vida de Jair Bolsonaro. Produzido pela Dori Filmes, o média-metragem chegou aos cinemas em 14 de maio, um dia após o site Intercept Brasil revelar que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro para bancar “Dark Horse”. Como mostrou o Estadão , o filme passou um mês em cartaz, período em que registrou 5,9 mil espectadores e bilheteria de R$ 123,9 mil . A Dori Filmes pertence ao cineasta Doriel Francisco da Silva, que está ligado aos produtores de “Dark Horse”. É ele quem assina o roteiro “Heróis Nacionais”, que seria transformado em série pela Academia Nacional de Cultura (ANC), uma organização não governamental (ONG) de Karina da Gama. O projeto seria bancado com recursos públicos, a partir de emendas Pix de Marcos Pollon, Carla Zambelli (PL-SP), Alexandre Ramagem (PL-RJ) e Bia Kicis (PL-DF), totalizando R$ 2,6 milhões. A produção da série, porém, não foi executada. Os recursos chegaram à Secretaria de Cultura do Governo de São Paulo, mas a pasta identificou pendências no projeto apresentado pela ONG e não repassou os valores à entidade. Enquanto “Dark Horse” está na mira da PF e da Polícia Civil de São Paulo, “A Colisão dos Destinos” é alvo de uma investigação da Ancine. O caso foi revelado pela Agência Pública . No processo, a produtora declarou gastos de somente R$ 4,5 mil com a obra. Para o órgão público, o valor indicado “não condiz com os custos de uma obra audiovisual”. A empresa alegou que não houve gastos com a produção porque “todos os técnicos trabalharam de forma voluntária”. Procurado, Doriel Francisco não respondeu. Filme sobre regimes totalitários Após a conclusão de “A Colisão dos Destinos”, o diretor Doriel Francisco assinou o roteiro de “Nós”, cujo projeto original recebeu o nome de “Genocidas”. Segundo a revista Oeste , o documentário traça um paralelo entre regimes totalitários do século 20 e o cenário político do Brasil. Pré-lançado em Brasília em julho, não há data de estreia prevista para o filme. A produção recebeu R$ 860,8 mil em emendas de Mário Frias, Eduardo Bolsonaro e Marcos Pollon. Os recursos foram geridos pela Associação Passos da Liberdade. Segundo o planejamento apresentado pela entidade ao Ministério da Cultura, houve filmagens no exterior, como Praga, na Chéquia , Varsóvia, na Polônia , e Budapeste, na Hungria . A Passos da Liberdade é presidida por Rodrigo Cassol Lima, que foi assessor do então secretário de Cultura Mário Frias durante o governo de Jair Bolsonaro. Cassol foi chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Cultural, que estava vinculada à pasta de Frias. Na prática, ele era o “número 2” do departamento. Neste ano, ele concorreu a deputado estadual do Rio Grande do Sul pelo PL, mas não se elegeu. Rodrigo não é o único ex-assessor de Frias envolvido no filme, cuja produção é de Gustavo Chaves Lopes, ex-titular da Secretaria Nacional do Audiovisual, que também vinculada a Frias durante o governo Bolsonaro. Procurados, Rodrigo Cassol e Gustavo Lopes não responderam. Documentário ‘clone’ Ao menos dois produtores de “Nós” estão envolvidos na realização de outro filme. Desde dezembro do ano passado, o PL pagou R$ 965 mil à Passos da Liberdade para a produção de um documentário intitulado “Problemas Nacionais – Reflexos Locais”. O contrato assinado entre o partido e a ONG envolve tanto a produção audiovisual quanto serviços de comunicação ao diretório mineiro da sigla. A prestação de contas não apresenta o valor global do serviço, mas revela que os dois documentários realizados pela entidade compartilham produtores entre si. Gustavo Lopes é diretor de ambas as produções e também assina o roteiro delas, assim como Anderson Rodrigues, responsável pela fotografia e edição dos dois filmes. Anderson Rodrigues não respondeu aos contatos da reportagem.